Eu não ia falar sobre esse assunto aqui, mas minha querida amiga Juliana me convenceu e acho que faz sentido porque é mesmo parte importante da cultura local.
Boa parte desse texto será baseado em um email que mandei para ela.
Bom, a história é a seguinte…
Eu frequento o centro de esportes da cidade desde que cheguei aqui, vou a academia pelo menos 3 vezes por semana, mas sempre ia pela manhã, quando estava bem vazia. Até que as férias escolares chegaram, meus horários mudaram e eu passei a malhar a noite.
A noite a academia fica cheia e pela primeira vez vi os “jovens” da cidade. Por conta disso comecei a receber vários convites para sair, assim, do nada. Os coreanos mais corajosos enxergam uma ocidental (sou a única na cidade) e já vem com um “Hi” e um “a gente podia sair para tomar alguma coisa um dia, tem telefone?”, isso quando não soltam algo breguíssimo como “você tem pouco tempo aqui mas ainda podemos criar linda memórias” (ugh!). Por sorte eu não tenho telefone e não precisava mentir, mas dei meu email para dois caras e comecei a fugir deles.
Mas aí eu fiquei com esses problemas de insônia e não conseguia dormir a noite de jeito nenhum. Por conta disso e do trabalho acabando mais cedo o tédio começou a reinar, e como falta pouquíssimo tempo para ir embora mesmo, semana passada aceitei sair com os dois. Sem nenhum interesse romântico, é claro, mas pra ver qual é, tentar fazer alguma coisa de interessante a noite e descobrir lugares legais na cidade.
Passamos então para a descrição dos encontros.
Coreano número 1:
Marcar um lugar para se encontrar foi dificílimo, aparentemente não conhecíamos nenhum lugar em comum na cidade e ele teve que recorrer para um google street no meio da sala de alongamento para me explicar o local.
Na hora certa nos encontramos e ele achou que era pra ter comido e eu achei que não. Demonstrei a minha fome e fomos a uma pizzaria, a que sempre vou, mas com o bônus de ele conhecer os donos. Aliás, ele conhece a cidade toda, o que foi meio esquisito e constrangedor, mas acho que mais pra ele do que pra mim.
Conversar é realmente dificil, isso que esse fala um bom inglês, mas o problema é a falta de assunto mesmo. Mas ok, eu tinha um truque na manga.
Depois da pizza fomos para um bar tomar soju (cachaça coreana) com uma tábua de frutas. Delicia!
E eu tinha levado um jogo de cartas coreano que comprei pq sempre achei uma graça, mas não tinha ninguém pra me ensinar a jogar, e pedi que ele me ensinasse. Esperta, né?
Então passamos o resto da noite jogando. As 12h pediram para fechar o bar e fomos embora. Acabou assim, simples e feliz. Me despedi rápida e friamente para evitar constrangimentos.
E o melhor é que os coreanos pagam tudo. Eu jamais deixaria isso acontecer no Brasil, mas aqui resolvi só aproveitar mesmo, até porque não sabia se era feio não aceitar.
Coreano número 2:
Marcamos as 7 da noite nos correios. As 7:02 apareceu uma coreana numa bicicleta gritando por mim. Ela não falava inglês. Por sorte meu colega coreano tava passeando também de bicicleta e parou para ajudar. Ela então o explicou que o menino estava no transito e se atrasaria 20 minutos. Nisso o colega vai embora mas duas das minhas alunas me enxergam e sentam comigo. Constrangimento para explicar onde vou.
Ele chegou de carro. Entrei. Uma gaiola grande com um micro cachorro fofo no banco de trás. “My baby” diz ele.
Passamos na casa dele para deixar o bichinho e seguimos no carro para outra cidade. Eu sem entender nada.
Fomos em uma cidade que fica a 30 minutos daqui e é grande! tipo uma cidade normal com centro, shopping, lojas, neon e tudo mais. Que alegria! Como nunca soube disso antes?
O inglês dele é péssimo o que dificultou muito a situação. Descobri que ele é originalmente da cidade onde estávamos e veio para Uiryeong faz uns 30 dias ou 5 semanas para trabalhar como instrutor de natação. Sim, ele trabalha na academia e não só nada como eu pensei. Ah, e vai se mudar para Vancouver no final do ano, o que me deixou ainda mais confusa em relação ao péssimo inglês dele.
Fomos ao cinema assistir Salt com a Angelina Jolie, escolhido previamente por ele. Pedimos pipoca e soda italiana, nessa hora tentei pagar e ele não deixou. Tive certeza então que não devia fazê-lo.
Depois de tanta pipoca eu não tinha mais fome, falei umas 30 vezes mas ele não entendeu, claro.
Pra vocês terem uma ideia de um diálogo nosso:
Eu – Então você se mudou para Uiryeong para trabalhar? Você não podia ser instrutor de natação aqui?
Ele – Na segunda feira, eu trabalho na segunda. Hoje e amanhã são meus dias livres.
Cri, cri…
A busca pelo carro no estacionamento do shopping foi outro evento.
Saímos claramente por uma porta diferente de onde entramos e ele não entendeu e queria que o carro estivesse ali. Então achou que estávamos no andar errado. Eu, como campeã internacional de localização em estacionamento, já sabia do erro. Mas como falar isso pra um cara?
Desci pro outro andar contrariada e ao pensar na possibilidade de descer mais escadas resolvi falar. Expliquei tudo pra ele, apontei para onde estaria o carro no andar certo e só ai fomos. Batata! estava bem onde eu disse.
Depois do shoppping fomos para o centro da cidade e estacionamos o carro para sair andando entre tantos prédios e luzes de neon. Tudo aqui tem aquele clima de cena do Lost in translation, e essa cidade em especial.
Ele queria jantar mas eu tava sem fome de tanta pipoca. Só queria um sorvete, o que ele demorou pra entender mas por fim fomos pro sorvete. Eu escolhi o meu e quis pagar. Ele não deixou, pagou e ai eu descobri que vieram dois sorvetes iguais. Ele pegou um pra ele também, no sabor que eu escolhi, sem nem saber se gostava ou não. Achei bem estranho, odeio esse tipo de relação. Sem contar com ele me explicando coisas do tipo “na sorveteria tem copo e casquinha”. Coisas que são óbvias, e que mesmo que fossem específicas da cultura oriental, eu já estou aqui faz 3 meses, né?
Ainda comendo os sorvetes, entramos em um restaurante para ele jantar. Ou assim eu achei, já que deixei claro que NÃO queria comer. Pediu frutos do mar, uma coisa enorme de frutos do mar, para dar e vender. Bem interessante, na verdade. Mas ele pediu um garfo pra mim, um garfo!

a janta
No meio disso tudo mencionei várias vezes que estava cansada porque não tinha dormido bem – o que era verdade, lembra da insônia? – e com um pouco de dor de cabeça por conta disso. Mas é claro que ele não entendeu, o que ficou provado quando, mais tarde, me perguntou se queria ir para uma balada.
No restaurante rolou um papo péssimo. Ele perguntou sobre a minha ida para a ilha, pois eu havia dito que estaria indo embora na semana seguinte mas sem antes visitar Jeju. E ele “ah, sozinha? semana que vem?” e eu senti aquele clima estranho e previ o que viria a seguir. “a gente podia ir juntos”. Não, definitivamente não. Deixei claro e mudei de assunto. Não entendo como alguém pode querer viajar com uma pessoa que mal conhece, não tem nada em comum e com quem não consegue se comunicar. É muito um deslumbre com o Ocidente.
Na hora de ir embora, depois de mais um longo diálogo para fazê-lo entender que eu queria ir para casa, ele pede para pararmos em um café já que ele tem que dirigir. O que foi ótimo já que logo na saída fomos parados em um bafômetro.
No café ele escolhe o dele e eu digo que não quero nada, afinal, quem quer café quando se tem insônia?
Aí o cara pede um café pra mim também, sem eu saber, claro, pois não entendo coreano. Pediu algo pra mim e sem nem saber se eu gosto ou não. Mais uma coisa que eu odeio. Mas conclui que é algo que vem junto com o fato de ele pagar por tudo, coisas da cultura machista que ainda impera por aqui.
E então, finalmente, a longa volta em silêncio para casa. Que depois de tanto café, suco e soju, me deixou morta de vontade de fazer xixi. Mas foi bom, pois, chegando aqui na frente de casa, eu pude só dizer “tchau, preciso muito fazer xixi, nos falamos outra hora. Obrigada” E deu! Fugi de qualquer constrangimento.
Coreano número 3:
Esse foi o pior, e totalmente inesperado.
Fui para Busan num sábado e passei a noite no cinema. O último filme acabou a uma da manhã. Resolvi dar uma passeada pela rua, que estava cheia de gente, para então pegar um táxi que me levasse a um jimjilbang.
Eis que estou parada olhando em volta e um menino começa a falar comigo em coreano. Não sei porque eles insistem nisso, e mesmo depois que demonstro não entender nada e falo algo em inglês, eles ainda demoram para mudar de língua.
“Inception, good”, ele me diz.
Ele havia visto o filme na mesma sessão que eu.
“I have a crush on you”, ele me diz e eu finjo não entender.
Começam então aquelas perguntas de sempre, de onde eu sou, o que estou fazendo ali e tudo mais. Faço questão de deixar claro que vou embora em duas semanas, que não moro em Busan, e que estou indo dormir logo.
No meio disso ele me pergunta porque estava sozinha no cinema. Digo que meus amigos foram a um show e que eu estava afim de ver filmes. Para ser simpática pergunto de volta, ao que ele responde “não tenho amigos, não gosto de amigos”. Não é um bom sinal, né?
Tenho então a brilhante ideia de dizer que quero pegar um taxi para que me leve a um jimjilbang, na esperança que ele explicasse isso para o motorista. Ele diz que sabe onde tem um e continuamos andando em direção aos taxis, ou assim eu achava. Ao chegar nos taxis digo “então tá, tchau”, e ele “não, eu te levo na minha bike”. A principio pensei em uma bicicleta, o que achei bem peculiar, eu, de carona numa bicicleta de madrugada. Sem saber muito o que fazer e já numa fase de topar qualquer coisa, aceitei. Chegando lá era uma vespa. Rosa. Uma vespa rosa bebê com as palavras “crazy magic” adesivadas na frente, um capacete na mesma cor e óculos no estilo piloto de avião da primeira guerra. Sabe? (Ou estou com a referência histórica errada?)
Pelo menos foi uma delicia um passeio de vespa na madrugada de Busan. Com um frio na barriga, mas foi bom.
Me levou para o jimjilbang que ele frequenta. “Tenho cartão de membro”. Me explicou como proceder mas não me deixava entrar. Ficou puxando assunto e assunto e enchendo o saco com esse papo brega coreano. E eu falando milhões de vezes o quanto queria dormir. Acabou que dormiu no jimjilbang também, apesar de eu dizer que não. Lembre que o jimjilbang não tem quartos nem nada, é um salão enorme onde todos dormem “juntos”, no chão.
Me encheu o saco a noite inteira, mesmo comigo virada pro outro lado sem me mexer apesar da dor que já sentia, afinal, estava dormindo no chão. Só por volta das 9 da manhã entendeu que eu realmente não iria falar com ele e foi embora. Só para deixar claro, eu puxei meu “colchão”, falei coisas do tipo “não quero olhar na tua cara”, “eu preciso dormir e tu só incomoda” e por aí vai.
No fim das contas, o que vale é que me entreti por algumas noites e tudo isso rendeu boas risadas com os amigos depois. E espero que renda pra vocês também.