Fumaça Parisiense

Faz tempo que eu penso em escrever sobre isso no blog, sempre me assusto com o quanto os Franceses fumam. E pior, com quão cedo eles começam a fumar. É só passar na frente de alguma escola para ver os adolescentes fumando logo no portão, como se fosse a coisa mais normal do mundo. E pra eles, é.
Quando vejo essas coisas, automaticamente faço uma comparação com o Brasil, e sempre acabo orgulhosa do nosso país e de como evoluímos nesse sentido.
Então hoje estava na capa dos jornais (ok, na verdade na capa do Metro que eu li) o aumento do preço dos cigarros por aqui, e a matéria continha algumas informações que me fizeram entender melhor a situação.
Os maços de cigarro terão um aumento de 6%, uma média de 0,30 centavos. Isso significa que os fabricantes e os comerciantes ganharão um pouquinho mais, mas principalmente, que o governo ganhará muito mais, cerca de 0,24 centavos por maço. O que fará com que, pela primeira vez, a receita fiscal do tabaco chegue a dez milhões de Euros em um só ano. Dinheiro esse que não deve ser empregado em programas contra o tabaco, aparentemente um tabu por aqui.
Acontece que, de acordo com pesquisadores e associações anti-tabaco, isso não significará uma diminuição no uso. De acordo com eles, apenas um aumento de 10% poderia causar algum efeito nesse sentido.
Se o preço aumenta um pouquinho as pessoas ou não ligam ou acham outras opções, como comprar nos países vizinhos com valores melhores, como Bélgica e Espanha; ou do mercado ilegal. Ou, como uma francesa me disse, compram direto o fumo e enrolam eles mesmos.
Parar de fumar não parece ser uma opção por aqui, ninguém parece pensar nisso.
Outro pequeno box na matéria anunciava uma leve polêmica. À partir de abril do ano que vem os maços de cigarro vão começar a vir com imagens “chocantes” dos danos provocados pelo tabaco. O exemplo que eles dão é uma foto super sutil de um rostinho de criança com uma fumaça em volta. Chocante?
E então eu volto a pensar no Brasil, que já usa essa tática há alguns anos. Acho que muita gente não se dá conta do quanto as coisas mudaram, do quanto os programas do ministério da saúde fizeram efeito ao longo dos anos. Cada vez que uma medida era tomada o pensamento geral era “jura que isso vai fazer alguém parar de fumar”. Pois fez.
E eu acho fantástico que hoje somos um país onde fumar não é mais uma característica de personalidade. Não é mais uma coisa que você precisa fazer pra ser cool, pra ser da turminha. Não faz mais parte de estereótipos à la Hollywood dos anos 50 onde intelectuais, burgueses e alternativos deviam fumar. Até porque, não há nada mais mainstream do que um cigarrinho na boca.
Gosto que preciso de um bom tempo para conseguir lembrar de algum amigo que fume, e que posso contar nos dedos de uma mão os que ainda não abandonaram esse péssimo hábito. E mesmo esses, pensam em ou já pensaram, e até tentaram, parar.
Eu mesma, passei esses 24 anos sem nunca ter colocado um cigarro na boca. E nunca me senti deslocada por isso, nunca senti uma pressão para experimentar. Mas acho que aqui na França é diferente.
E pra mim, ver meninos e meninas de 15 anos fumando na frente da escola é uma prova disso. Crianças e adolescentes só começam a fumar por influência e pra não ficar de fora, não é algo espontâneo.
Eu vejo uma cultura do fumo aqui, quase como se isso fosse uma marca francesa que deve ser conservada. O que me assusta um bocado.
Uma francesa me contando do ano em que viveu nos Estados Unidos, comentou “Lá eles são super contra cigarro, eu acendia um na rua e todos me olhavam como se eu fosse uma louca. Eu só pensava, que ridículo!”.
À meu ver, isso exemplifica bem o pensamento geral por aqui.

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2010, o ano em que os brasileiros entraram em guerra

Algo muito estranho aconteceu no Brasil esse ano, fazendo dessa a eleição mais triste que eu já vi. *
Não, minha candidata não perdeu. Mas não posso dizer que considero essa uma vitória para o país.
A derrota que eu vejo nada tem a ver com o governo que está por vir, mas sim com a perda da noção de democracia e respeito pelo outro.
Nessa história não defendo nenhum do lados. Todo mundo errou. E não pretendo com esse texto entrar no mérito das ações dos políticos em si, do marketing eleitoral sujo e nem mesmo dos jornalistas.
O meu problema é com o eleitor. Tenha sido ele influenciado por quem for, nada justifica a guerra que virou o Brasil. O país do futebol transformou a eleição em Brasileirão. Os torcedores com bandeiras em punho apoiam seu time acima de tudo. Não é preciso concordar com o que o time faz, mesmo na hora da falta quem erra é sempre o juiz.
A escolha do time nem sempre vem de uma pesquisa de qual é o mais interessante, seja qual for o critério, mas sim da sugestão de um amigo, da tradição da família, de qual ganhou o último campeonato ou o que tem aquele astro que você gosta tanto.
Nos piores casos vem do preconceito, alguém falou que tal time é de pobre, de preto, é daquele bairro de favelado, tem aquele jogador gay.
Em meio a uma pequena parte de eleitores com uma mínima argumentação política e uma boa parte que vive na pele as questões debatidas pelos candidatos, a maioria das pessoas das campanhas do “Não” nem sabem as propostas das vítimas de seus ataques. A maioria das pessoas das campanhas do “quero” e do “contra”, são de classe média e alta. Classes que diferente daquela do presidente supostamente analfabeto e operário, não tem difícil acesso a educação, mas que nem por isso sabem pensar por si só.
Parece que o Brasil esqueceu que presidente é apenas uma função, uma profissão, e que isso nada tem a ver com o lado pessoal. “Não quero Dilma pois ela é raivosa, se veste mal, é amiga do Lula, deve ser lésbica”. “Não quero Serra pois ele é careca, velho, fala esquisito e parece um vampiro robô”.
Parece que se esqueceu que não importa o que aconteça estamos nesse barco juntos, esse é o nosso país e ele não vai afundar. Não é porque a Dilma ganhou que o mundo vai acabar, tampouco se o Serra tivesse ganho, ou a Marina, o Plínio, seja quem for.
Um governo nunca será perfeito, e nem se espera que ele seja. Um governo nunca vai agradar a todos e volta e meia terá que fazer algumas escolhas difíceis. Um governo existe para ser contestado sempre, não só pela oposição mas também por quem nele acredita. E isso é democracia.
Ninguém é burro porque votou nesse ou naquele. Só é irresponsável quem vota sem se informar, quem espalha o ódio, a intolerância e o preconceito.
Para todos aqueles que defenderam seus candidatos com convicção, conhecendo suas qualidades e defeitos, refletindo sobre o que isso significa para o país, acreditando que seria esse o melhor para o Brasil que querem ver. À vocês, todo o meu respeito.

*Em 1989 eu tinha apenas 3 anos e sobre isso não posso falar.

Atualização: A situação chegou a um nível tão baixo que alguém fez um tumblr pra organizar as baixarias preconceituosas que estão rolando na internet. Vale a pena olhar http://xenofobianao.tumblr.com
Como eu disse no facebook de um amigo, pra mim o pior de tudo é que pouco importaria se isso tudo fosse verdade assim nua e crua, o sul pagando pelo norte.
o triste é esse povo todo, do topo das suas coberturas, achar isso um problema, enquanto eu ficaria orgulhosa de estar ajudando duas regiões tão grandes do país a viver melhor.

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Lições de decoração com a Island Guesthouse

Como eu mencionei no post sobre Jeju, a Island guesthouse foi um dos lugares que eu fiquei na ilha.
A dona do albergue viaja muito pelo mundo todo e a decoração reflete isso, com objetos encontrados pelos quatro cantos.
Eu fiquei encantada com algumas ideias super simples e baratas.

Prateleira linda com garrafinhas de bebidas do mundo. Eu trouxe várias da Coréia mas como não tenho casa, ficaram pros amigos.

A já clássica parede como quadro de giz mas com notas de dinheiro e bolachas de cerveja como decoração. Além do charme do cabide.

Coleção de pedras e conchas mais linda que eu já vi! E os potinhos são de areia de diferentes desertos, tem do Chile, Peru, China, Egito...

Uma visão geral com os guias de viagem

Mural de rolhas com fotos e cartões postais

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A arte de responder perguntas

Eu tenho um problema com perguntas cotidianas.
Sabe aquelas perguntas clássicas de começo de conversa com alguém que você recém conheceu? Ou aquele papo com o taxista, o vendedor da loja, o médico?
Nunca são fáceis para mim.
Acho que tudo começou quando um ano depois de nascer em Porto Alegre, meus pais me levaram para Florianópolis, comprometendo assim a pergunta “De onde você é?”.
Eu sou de Porto Alegre? Não, pois responder isso implica em eu ter tido uma vida na cidade, conhecê-la bem e considerá-la o meu lar. Não é o caso. Eu sou de Florianópolis? Também não, pois não nasci lá e continuo me considerando gaúcha. A resposta padrão virou: Nasci em Porto Alegre mas sempre morei em Floripa.
Ao resolver fazer universidade em Porto Alegre a resposta ficou ainda mais complicada: “Nasci em Porto Alegre, morei a vida toda em Floripa e agora voltei para lá para estudar”. O que, ao mudar para São Paulo depois de me formar ficou ainda pior, mas você já entendeu a lógica, né?

A universidade ainda trouxe mais problemas, fazer um curso de Realização Audiovisual traz toda uma nova gama de respostas complicadas.
Qual é sua profissão?
Ahn… Hm…
Realizadora audiovisual não rola né? Cineasta? Que prepotência, e nem chega perto da verdade. Diretora de arte? Ok, era isso que eu planejava quando estudante mas eu estava mais pra “faço qualquer coisa” do que pra algo definido.
Acabou que nunca achei uma resposta boa e a cada novo cadastro um novo termo, ou mentira, foi inventado por mim. Não existem dois consultórios médicos em que eu tenha a mesma profissão.
E que tal “Onde você trabalha?”.
Essa profissão sem nome é basicamente de freelas, ou seja, eu nunca trabalho em um lugar, eu nunca tenho um emprego. Complicado o suficiente se eu fizesse só isso, mas pra completar eu não fazia trabalhos só na área, eu dei um pulo na moda e até por pesquisa iconográfica eu passei.

Nesses últimos meses uma nova pergunta se juntou a esse grupo: “Onde você mora?”.
Olha, meu amigo, eu no momento eu não moro, eu só existo.
Desde fevereiro eu pulei de casa de amigo em casa de amigo, para casa de parente a casa de parente. E então vieram os 3 meses na Coréia, para as pessoas daqui eu podia dizer que morava lá. Mas para as pessoas de lá, eu, em teoria morava aqui, mas onde?
E nesse mês de Brasil, como explicar que não moro em lugar nenhum?
“Tá em São Paulo ainda?” “Voltou pra Floripa?” “Tá morando em Porto Alegre?”
Pelo menos daqui a 15 dias vou poder dizer: “Moro em Paris”.

Eu sou e estou. Nada mais.
Definição não é comigo.

Até o meu nome sempre traz consigo novas perguntas…

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Jeju

Cá estou eu de novo, depois de um certo tempo. Esse mês no Brasil está super corrido, era preciso resolver todas as questões pós-Coréia e todas as pré-França.
Mas já estava mais do que na hora de contar um pouco dos meus dias em Jeju, então vamos lá.

Cheguei num domingo de manhã cedo. A previsão dizia que choveria em todos os dias menos no meu último, mas foi bem o contrários, os dias foram lindíssimos até que a chuva começou na quinta-feira a noite, véspera da minha partida.
Nos primeiros dias dormi na região de Jeju city e explorei o norte e leste da ilha. Depois passei duas noites na região da cidade de Seowipo, conhecendo o sul e oeste, não é necessário fazer isso, mas facilita muito e eu recomendo.
As atrações estão bem espalhadas, mas ao contrário do que os coreanos dizem, achei o sistema de ônibus bem bom e juntando isso com o táxis super baratos fica super fácil de se locomover. Além disso, nada toma muito tempo e isso torna possível que se veja várias coisas num dia só.
A seguir os lugares que visitei, espero realmente que um dia alguém aproveite essas dicas.

A caverna Manjanggul: Um túnel de lava considerado patrimônio da humanidade pela UNESCO. É interessante por ser o que é, mas não é algo que dá vontade de voltar. É gelado, molhado, longo demais já que nada muda muito e as plaquinhas com explicações são péssimas, não consegui entender quase nada. (LESTE)

Seongsan Ilchulbong, também conhecido como Sunrise Peak: Uma espécie de monte com uma cratera no topo e na beira do mar, também de formação vulcânica e também reconhecido pela UNESCO. Requer uma boa caminhada até o alto mas a vista vale a pena, se vê toda a ilha. Há ainda uma prainha do lado onde as últimas mergulhadoras de Jeju demonstram o seu ofício. Por volta dos 70 anos, essas senhoras representam uma tradição que morrerá com elas, a pesca sem nenhum equipamento e feita só por mulheres.(LESTE)

Yongduam Rock: É uma rocha na beira do mar que supostamente tem o formato de um dragão. Não vale a pena. Fica numa localizacão péssima, não dá pra ir de ônibus e não tem taxis por perto para ir embora. Se quiser muito ir, vá perto do pôr do sol que fica bem bonito por ali. (JEJU CITY)

Oedolgae: Também é uma rocha na beira do mar, mas bem mais interessante pois fica numa espécie de parque e é numa região cheia de coisas para ver. (SUL)

Jeongbang: Parece que é a única cachoeira da Ásia que cai diretamente no mar. Achei bonito e um lugar gostoso para sentar e fazer um pequeno pic nic. (SUL)

Cheonjiyeon: Mais uma cachoeira em um ambiente simpático. Como está na mesma área das duas atrações anteriores vale a pena num combo. (SUL)

Hyeopjae: Uma praia relativamente famosa mas não muito lotada. É bem gostosa, com o mar bem transparente e diversos peixinhos nadando ao nosso redor. Mas é rasa, você anda, anda e anda e água não chega a cintura. (OESTE)

Hallim Park: Bem na frente da praia é um parque ótimo, praticamente um resumo de jeju. Tem jardins, pássaros, esculturas, uma réplica de uma vila tradicional da ilha e duas cavernas. As cavernas são bem pequenas (quer dizer, o que a gente pode visitar) mas achei bem mais legal que a grande Manjanggul. (OESTE)

Gimnyeong: A minha praia preferida e descoberta por acaso. É como Hyeopjae mas não é famosa e por isso é bem vazia, antes das 11 da manhã não tem ninguém. Ainda tem a vantagem de não ser rasa. Uma delícia! (OESTE)

Onde eu dormi:
Os albergues de Jeju foram os melhores albergues que eu fiquei na Coréia, e o Yeha foi o melhor que eu já fiquei na vida.

Yeha Guesthouse : Em Jeju city, do lado da rodoviária de onde saem ônibus para todos os lugares da ilha, e bem perto da rua principal da cidade, ótima para encontrar o que comer. Melhor localização impossível! E é uma gracinha, tudo novinho, limpo e bem decorado. Os funcionários são muito simpáticos e falam um ótimo inglês. Além disso há muita interação entre os hóspedes, com quadros para dividir táxis, para dar notas as atrações da ilha, uma mapa onde todos marcamos um alfinete na nossa cidade origem com nosso nome e data de estadia e um quadro enorme com notas de dinheiro de todos os lugares do mundo, colocados por todos nós que passamos por ali.

Island Guesthouse: Fica ao sul da ilha. A localização parece bem estranha, confesso que me assustei ao chegar por ser no meio do nada, mas logo descobri que lá passam vários ônibus e é fácil ir para qualquer lugar.
E por dentro é uma graça também. A dona viaja pelo mundo inteiro, inclusive estava viajando no momento e a casa é lotada de coisas do mundo inteiro, várias do Brasil. Vai rolar um post só sobre isso em breve.

obs.: A internet não tá colaborando e não consigo colocar mais fotos, mas pra quem tiver interesse elas estão no meu flickr.

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(des)encontros coreanos

Eu não ia falar sobre esse assunto aqui, mas minha querida amiga Juliana me convenceu e acho que faz sentido porque é mesmo parte importante da cultura local.
Boa parte desse texto será baseado em um email que mandei para ela.

Bom, a história é a seguinte…
Eu frequento o centro de esportes da cidade desde que cheguei aqui, vou a academia pelo menos 3 vezes por semana, mas sempre ia pela manhã, quando estava bem vazia. Até que as férias escolares chegaram, meus horários mudaram e eu passei a malhar a noite.
A noite a academia fica cheia e pela primeira vez vi os “jovens” da cidade. Por conta disso comecei a receber vários convites para sair, assim, do nada. Os coreanos mais corajosos enxergam uma ocidental (sou a única na cidade) e já vem com um “Hi” e um “a gente podia sair para tomar alguma coisa um dia, tem telefone?”, isso quando não soltam algo breguíssimo como “você tem pouco tempo aqui mas ainda podemos criar linda memórias” (ugh!). Por sorte eu não tenho telefone e não precisava mentir, mas dei meu email para dois caras e comecei a fugir deles.
Mas aí eu fiquei com esses problemas de insônia e não conseguia dormir a noite de jeito nenhum. Por conta disso e do trabalho acabando mais cedo o tédio começou a reinar, e como falta pouquíssimo tempo para ir embora mesmo, semana passada aceitei sair com os dois. Sem nenhum interesse romântico, é claro, mas pra ver qual é, tentar fazer alguma coisa de interessante a noite e descobrir lugares legais na cidade.
Passamos então para a descrição dos encontros.

Coreano número 1:
Marcar um lugar para se encontrar foi dificílimo, aparentemente não conhecíamos nenhum lugar em comum na cidade e ele teve que recorrer para um google street no meio da sala de alongamento para me explicar o local.
Na hora certa nos encontramos e ele achou que era pra ter comido e eu achei que não. Demonstrei a minha fome e fomos a uma pizzaria, a que sempre vou, mas com o bônus de ele conhecer os donos. Aliás, ele conhece a cidade toda, o que foi meio esquisito e constrangedor, mas acho que mais pra ele do que pra mim.
Conversar é realmente dificil, isso que esse fala um bom inglês, mas o problema é a falta de assunto mesmo. Mas ok, eu tinha um truque na manga.
Depois da pizza fomos para um bar tomar soju (cachaça coreana) com uma tábua de frutas. Delicia!
E eu tinha levado um jogo de cartas coreano que comprei pq sempre achei uma graça, mas não tinha ninguém pra me ensinar a jogar, e pedi que ele me ensinasse. Esperta, né?
Então passamos o resto da noite jogando. As 12h pediram para fechar o bar e fomos embora. Acabou assim, simples e feliz. Me despedi rápida e friamente para evitar constrangimentos.
E o melhor é que os coreanos pagam tudo. Eu jamais deixaria isso acontecer no Brasil, mas aqui resolvi só aproveitar mesmo, até porque não sabia se era feio não aceitar.

Coreano número 2:
Marcamos as 7 da noite nos correios. As 7:02 apareceu uma coreana numa bicicleta gritando por mim. Ela não falava inglês. Por sorte meu colega coreano tava passeando também de bicicleta e parou para ajudar. Ela então o explicou que o menino estava no transito e se atrasaria 20 minutos. Nisso o colega vai embora mas duas das minhas alunas me enxergam e sentam comigo. Constrangimento para explicar onde vou.
Ele chegou de carro. Entrei. Uma gaiola grande com um micro cachorro fofo no banco de trás. “My baby” diz ele.
Passamos na casa dele para deixar o bichinho e seguimos no carro para outra cidade. Eu sem entender nada.
Fomos em uma cidade que fica a 30 minutos daqui e é grande! tipo uma cidade normal com centro, shopping, lojas, neon e tudo mais. Que alegria! Como nunca soube disso antes?
O inglês dele é péssimo o que dificultou muito a situação. Descobri que ele é originalmente da cidade onde estávamos e veio para Uiryeong faz uns 30 dias ou 5 semanas para trabalhar como instrutor de natação. Sim, ele trabalha na academia e não só nada como eu pensei. Ah, e vai se mudar para Vancouver no final do ano, o que me deixou ainda mais confusa em relação ao péssimo inglês dele.
Fomos ao cinema assistir Salt com a Angelina Jolie, escolhido previamente por ele. Pedimos pipoca e soda italiana, nessa hora tentei pagar e ele não deixou. Tive certeza então que não devia fazê-lo.
Depois de tanta pipoca eu não tinha mais fome, falei umas 30 vezes mas ele não entendeu, claro.

Pra vocês terem uma ideia de um diálogo nosso:
Eu – Então você se mudou para Uiryeong para trabalhar? Você não podia ser instrutor de natação aqui?
Ele – Na segunda feira, eu trabalho na segunda. Hoje e amanhã são meus dias livres.
Cri, cri…

A busca pelo carro no estacionamento do shopping foi outro evento.
Saímos claramente por uma porta diferente de onde entramos e ele não entendeu e queria que o carro estivesse ali. Então achou que estávamos no andar errado. Eu, como campeã internacional de localização em estacionamento, já sabia do erro. Mas como falar isso pra um cara?
Desci pro outro andar contrariada e ao pensar na possibilidade de descer mais escadas resolvi falar. Expliquei tudo pra ele, apontei para onde estaria o carro no andar certo e só ai fomos. Batata! estava bem onde eu disse.
Depois do shoppping fomos para o centro da cidade e estacionamos o carro para sair andando entre tantos prédios e luzes de neon. Tudo aqui tem aquele clima de cena do Lost in translation, e essa cidade em especial.
Ele queria jantar mas eu tava sem fome de tanta pipoca. Só queria um sorvete, o que ele demorou pra entender mas por fim fomos pro sorvete. Eu escolhi o meu e quis pagar. Ele não deixou, pagou e ai eu descobri que vieram dois sorvetes iguais. Ele pegou um pra ele também, no sabor que eu escolhi, sem nem saber se gostava ou não. Achei bem estranho, odeio esse tipo de relação. Sem contar com ele me explicando coisas do tipo “na sorveteria tem copo e casquinha”. Coisas que são óbvias, e que mesmo que fossem específicas da cultura oriental, eu já estou aqui faz 3 meses, né?
Ainda comendo os sorvetes, entramos em um restaurante para ele jantar. Ou assim eu achei, já que deixei claro que NÃO queria comer. Pediu frutos do mar, uma coisa enorme de frutos do mar, para dar e vender. Bem interessante, na verdade. Mas ele pediu um garfo pra mim, um garfo!

a janta

No meio disso tudo mencionei várias vezes que estava cansada porque não tinha dormido bem – o que era verdade, lembra da insônia? – e com um pouco de dor de cabeça por conta disso. Mas é claro que ele não entendeu, o que ficou provado quando, mais tarde, me perguntou se queria ir para uma balada.
No restaurante rolou um papo péssimo. Ele perguntou sobre a minha ida para a ilha, pois eu havia dito que estaria indo embora na semana seguinte mas sem antes visitar Jeju. E ele “ah, sozinha? semana que vem?” e eu senti aquele clima estranho e previ o que viria a seguir. “a gente podia ir juntos”. Não, definitivamente não. Deixei claro e mudei de assunto. Não entendo como alguém pode querer viajar com uma pessoa que mal conhece, não tem nada em comum e com quem não consegue se comunicar. É muito um deslumbre com o Ocidente.
Na hora de ir embora, depois de mais um longo diálogo para fazê-lo entender que eu queria ir para casa, ele pede para pararmos em um café já que ele tem que dirigir. O que foi ótimo já que logo na saída fomos parados em um bafômetro.
No café ele escolhe o dele e eu digo que não quero nada, afinal, quem quer café quando se tem insônia?
Aí o cara pede um café pra mim também, sem eu saber, claro, pois não entendo coreano. Pediu algo pra mim e sem nem saber se eu gosto ou não. Mais uma coisa que eu odeio. Mas conclui que é algo que vem junto com o fato de ele pagar por tudo, coisas da cultura machista que ainda impera por aqui.
E então, finalmente, a longa volta em silêncio para casa. Que depois de tanto café, suco e soju, me deixou morta de vontade de fazer xixi. Mas foi bom, pois, chegando aqui na frente de casa, eu pude só dizer “tchau, preciso muito fazer xixi, nos falamos outra hora. Obrigada” E deu! Fugi de qualquer constrangimento.

Coreano número 3:
Esse foi o pior, e totalmente inesperado.
Fui para Busan num sábado e passei a noite no cinema. O último filme acabou a uma da manhã. Resolvi dar uma passeada pela rua, que estava cheia de gente, para então pegar um táxi que me levasse a um jimjilbang.
Eis que estou parada olhando em volta e um menino começa a falar comigo em coreano. Não sei porque eles insistem nisso, e mesmo depois que demonstro não entender nada e falo algo em inglês, eles ainda demoram para mudar de língua.
“Inception, good”, ele me diz.
Ele havia visto o filme na mesma sessão que eu.
“I have a crush on you”, ele me diz e eu finjo não entender.
Começam então aquelas perguntas de sempre, de onde eu sou, o que estou fazendo ali e tudo mais. Faço questão de deixar claro que vou embora em duas semanas, que não moro em Busan, e que estou indo dormir logo.
No meio disso ele me pergunta porque estava sozinha no cinema. Digo que meus amigos foram a um show e que eu estava afim de ver filmes. Para ser simpática pergunto de volta, ao que ele responde “não tenho amigos, não gosto de amigos”. Não é um bom sinal, né?
Tenho então a brilhante ideia de dizer que quero pegar um taxi para que me leve a um jimjilbang, na esperança que ele explicasse isso para o motorista. Ele diz que sabe onde tem um e continuamos andando em direção aos taxis, ou assim eu achava. Ao chegar nos taxis digo “então tá, tchau”, e ele “não, eu te levo na minha bike”. A principio pensei em uma bicicleta, o que achei bem peculiar, eu, de carona numa bicicleta de madrugada. Sem saber muito o que fazer e já numa fase de topar qualquer coisa, aceitei. Chegando lá era uma vespa. Rosa. Uma vespa rosa bebê com as palavras “crazy magic” adesivadas na frente, um capacete na mesma cor e óculos no estilo piloto de avião da primeira guerra. Sabe? (Ou estou com a referência histórica errada?)
Pelo menos foi uma delicia um passeio de vespa na madrugada de Busan. Com um frio na barriga, mas foi bom.
Me levou para o jimjilbang que ele frequenta. “Tenho cartão de membro”. Me explicou como proceder mas não me deixava entrar. Ficou puxando assunto e assunto e enchendo o saco com esse papo brega coreano. E eu falando milhões de vezes o quanto queria dormir. Acabou que dormiu no jimjilbang também, apesar de eu dizer que não. Lembre que o jimjilbang não tem quartos nem nada, é um salão enorme onde todos dormem “juntos”, no chão.
Me encheu o saco a noite inteira, mesmo comigo virada pro outro lado sem me mexer apesar da dor que já sentia, afinal, estava dormindo no chão. Só por volta das 9 da manhã entendeu que eu realmente não iria falar com ele e foi embora. Só para deixar claro, eu puxei meu “colchão”, falei coisas do tipo “não quero olhar na tua cara”, “eu preciso dormir e tu só incomoda” e por aí vai.

No fim das contas, o que vale é que me entreti por algumas noites e tudo isso rendeu boas risadas com os amigos depois. E espero que renda pra vocês também.

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Na ilha do amor

Meus dias de Coréia estão acabando!
Hoje é meu último dia de trabalho por aqui e amanhã cedinho deixo o meu lar coreano para nunca mais.
Mas antes de voltar para o Brasil tenho 5 dias de puro descanso e diversão em Jeju-do, também conhecida como ilha do amor e destino preferido dos recém casados coreanos.
Jeju é uma ilha vulcânica e nela fica a montanha mais alta da Coréia, Hallasan. É famosa por suas cachoeiras e as cavernas que costumavam ser tubos de lava e que deram ao local o status de patrimônio da humanidade da Unesco.
Duas fotinhos para vocês terem uma idéia:

Não pretendo usar o computador lá, mas deixarei um post bem engraçadinho agendado pra vocês se divertirem na semana que vem.
Volto a escrever sobre Jeju do Brasil, onde fico por um mês. E a partir de outubro esse blog continua de Paris. :)

obs.: Essas fotos são da wikipedia mas eu as achei através no ótimo blog Bom dia Seul da embaixada do Brasil na Coréia.

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